Inteligência artificial
Como usar IA na advocacia sem citar jurisprudência falsa
Dá para usar inteligência artificial na advocacia com segurança seguindo três cuidados: nenhuma citação entra na peça sem ser aberta na fonte oficial, nenhum dado que identifique o cliente vai para uma ferramenta que não foi contratada para isso, e a revisão final é sempre de um advogado. O risco é concreto: já existe multa por litigância de má-fé aplicada a recurso com jurisprudência inventada por IA.
Por Equipe Lavraria4 min de leitura
Por que a IA inventa citações
Um modelo de linguagem não consulta uma base de julgados: ele escreve o texto mais provável. Quando falta informação, o mais provável ainda tem cara de ementa, com número, relator e data. É o que se chama de alucinação, e ela não vem com aviso.
Por isso a pergunta útil não é "a IA acertou?", e sim "eu consigo abrir a fonte?".
O que já aconteceu nos tribunais
Em fevereiro de 2025, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina julgou um recurso que citava jurisprudência e doutrina inexistentes, geradas por inteligência artificial. O resultado foi multa de 10% sobre o valor atualizado da causa, por litigância de má-fé, e comunicação à OAB de Santa Catarina. O acórdão registra que as novas tecnologias pedem uso "com cautela e parcimônia" (notícia do TJSC).
O que os advogados dizem
Os números são de uma pesquisa da AASP com 1.149 associados, feita entre maio e julho de 2026 (fonte). Ou seja: quase todo mundo usa, e quase ninguém confia sem conferir.
Cinco regras práticas
- Abra cada citação na fonte oficial. Site do tribunal, Planalto ou LexML. Leia o inteiro teor, não só a ementa.
- Confira a identificação. Número do processo, órgão julgador, relator e data precisam bater com o que está na página. Trecho certo com número errado também é erro.
- Não cole dados do cliente em ferramenta genérica. Nome, CPF e número de processo ficam fora. O sigilo profissional e a LGPD continuam valendo quando a conversa é com uma máquina.
- Peça a fonte e trate o que vier sem ela como rascunho. Afirmação sem endereço para conferir não entra na peça.
- Deixe a revisão registrada. Quem conferiu, quando, e o que ficou de fora. É o que mostra diligência se alguém perguntar depois.
O que a OAB recomenda
O Conselho Federal da OAB aprovou, em 11 de novembro de 2024, recomendações para o uso de IA generativa na prática jurídica, elaboradas pelo seu Observatório Nacional de Cibersegurança, Inteligência Artificial e Proteção de Dados. O documento tem quatro eixos: legislação aplicável, confidencialidade e privacidade, prática jurídica ética e comunicação sobre o uso de IA generativa. Segundo a própria OAB, as diretrizes visam resguardar a confidencialidade das informações dos clientes e o uso ético e responsável da tecnologia, e remetem ao Código de Ética e Disciplina (OAB).
Como a Lavraria trata o problema
Na Lavraria, a regra das cinco práticas está no próprio sistema: a pesquisa só olha fontes oficiais, o sistema abre cada endereço e confere o trecho, o rascunho só usa o que foi conferido e marca em amarelo o que ficou sem fonte, e os dados das partes não são enviados à IA. Os detalhes estão em IA para advogados e em pesquisa de jurisprudência. A leitura final continua sendo sua.

Perguntas frequentes
Posso ser punido por usar IA em uma peça?
O uso em si não é proibido. O que já gerou punição foi apresentar citação que não existe: no caso do TJSC, houve multa por litigância de má-fé e comunicação à OAB.
O ChatGPT serve para pesquisar jurisprudência?
Serve para levantar caminhos, não como fonte. Tudo o que ele citar precisa ser aberto no site do tribunal antes de entrar na peça.
Preciso avisar o cliente de que usei IA?
As recomendações da OAB têm um eixo só sobre comunicação do uso de IA generativa. Na dúvida, informar e registrar é o caminho mais seguro.
Ferramenta que confere a fonte dispensa a minha leitura?
Não. A conferência automática mostra que o trecho está na página oficial; não diz se a decisão serve ao seu caso nem se o entendimento continua valendo.
Fontes
- TJSC: multa por jurisprudência falsa gerada por IA
- Pesquisa da AASP sobre IA na advocacia (2026), em CryptoID
- OAB Nacional: recomendações para o uso de IA na prática jurídica
Este texto é informativo e não substitui a análise de um advogado sobre o caso concreto.
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